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24.09.05
Por Swami Narayananand Ayurved Saraswati
(Dr. José Ruguê)
Todo ser humano possui, no conceito da milenar Sabedoria Védica, quatro objetivos ou metas fundamentais na vida. Elas são chamadas fundamentais por serem naturais à existência humana e não estabelecidas culturalmente. Ou seja, em todos os tempos, em todas as partes do mundo as pessoas são impulsionadas naturalmente a buscarem a realização dessas metas.
Elas são:
Artha – a busca da prosperidade
Kama – a busca do prazer, da felicidade.
Dharma – a busca da realização de seus talentos internos
Moksha – a busca da liberdade
A palavra sânscrita que designa o conjunto desses objetivos é Purushartha. No contato do ser humano com o universo que o cerca e com seu mundo interior surge a oportunidade de exercitar a realização dessas metas. Para muitos de nós, enquanto nossa consciência se apresenta fragmentada, há conflito na plena realização desses objetivos. No afã de ser próspera (artha) a pessoa, muitas vezes, perda a liberdade (moksha) e se torna escrava de compromissos que sufocam toda a realização do prazer (kama). Outras vezes, na busca do prazer abre mão da realização dos talentos pessoais e se torna escrava de contingências.
Nossa sociedade, principalmente no Ocidente, tem privilegiado a busca de Artha e Kama (prosperidade e prazer). Nossa cultura foi construída tendo por base a busca do prazer não importando se isso se baseia na realização de nossos talentos internos ou quanto de nossa liberdade vai ser sacrificada. A sociedade construída após a revolução industrial materializou a realização da prosperidade no acúmulo do dinheiro. Em outras palavras, a prosperidade é representada pelo conteúdo de nossas contas bancárias e isso traduz quanto prazer podemos comprar! Essa distorção tem ficado ainda mais patente quando encaramos a liberdade como a possibilidade de buscar todas as formas de prazer sem nenhum limite. Quantas pessoas nesse mundo vivem ou almejam a liberdade segundo esse ponto de vista? A busca alucinante por poder que encanta a muitos líderes, políticos e religiosos não é outra coisa que a busca de exercer livremente o prazer e o acúmulo de riqueza.
Essa é a fonte da violência, dos conflitos e da insatisfação geral que permeiam nosso mundo. Para as pessoas que se restringem a esse nível de visão da vida as religiões apresentam Deus como o grande doador da prosperidade e do prazer que elas buscam. Nem sempre esse prazer e essa prosperidade virão nessa vida e, para aqueles que se sentem frustrados, apresenta-se a idéia de um céu onde os nossos desejos poderão ser realizados na forma de prazer, sem que a dor inerente ao mesmo venha associada. Por exemplo, existem alguns conceitos de céu onde você poderá comer tudo o que quiser e não engordar!!! Ter todas as mulheres que queira ao mesmo tempo, sem que elas transformem sua vida em um inferno, com o perdão da palavra!!!
Esse enfoque religioso é chamado Caminho Exotérico ou exterior.
Algumas pessoas já têm desenvolvido um nível de maturidade emocional, psicológica e espiritual onde o encantamento desses “brinquedos infantis” tão hipnotizantes que movem a vida de tantos nessa busca desenfreada de prazer e acúmulo de riquezas que dão ilusória segurança já vão perdendo sua ação escravizante – Moha - e estas pessoas começam a se indagar como realizar seus anseios internos mais profundos, qual é seu papel nessa ordem cósmica (dharma) e como se livrar (moksha) dessa visão condicionada da vida que separa os seres e distorce a realidade; como ser livre do escravizante fluxo dos pensamentos e emoções que nos levam como as ondas do mar levam a um indefeso barco de um lado para o outro e qual realidade se descortina para aquele que conquistou essa liberdade. Esse ser humano, quando bem orientado, entende que a busca de prosperidade e de felicidade não conflita com a realização desses outros objetivos, apenas coloca o foco deles em motivações mais permanentes e mais reais.
Para as pessoas que se encontram nesse nível de busca e de mobilização interna e externa surgiram, desde um remoto passado, as Escolas de Sabedoria em todas as partes do mundo. Dirigidas por Hierofantes, Mestres, Gurus, Seres que já conquistaram a realização experimental das dimensões superiores da existência humana e se puseram em contato com a Consciência Pura de onde tudo emana, essas Escolas foram sempre a fonte de luz para o mundo. Ensinavam como ensinam o treinamento individual naquilo que foi extraordinariamente cunhado por Audous Huxley como Sabedoria Perene, tradução da expressão sânscrita Sanátana Dharma. Alguns a chamaram Ciência Mística Experimental, outros Mistérios Menores e Maiores, Caminho Esotérico ou Interior e outros tantos nomes que indicam sua natureza universal, seu método de encontrar as potencialidades existentes no interior do ser humano e o fato da necessidade da existência de uma Escola porque nesse Caminho não há como ser autodidata. Não se trata de um folclore ou de uma filosofia desenvolvida por uma civilização, nos primórdios ainda rudimentares da consciência humana, mas, se você observar atentamente, as experiências de realização dos métodos dessas Escolas têm uma maravilhosa semelhança, ainda que obtidas por pessoas vivendo em lugares tão diferentes, em culturas tão diferentes e em tempos tão diferentes. Por exemplo, analisem as experiências místicas de Santa Tereza de Jesus e Sri Ramakrishna Paramahamsa. Culturas tão diferentes, crenças tão diversas e aquela Sabedoria infusa proveniente das experiências diretas com a Verdade. É obvio que, na descrição das experiências, a linguagem de cada um se baseia nos conceitos locais, mas o resultado de transformação interior e da aquisição de um conhecimento que não provem do tedioso processo de raciocínio indutivo ou dedutivo lógico são maravilhosamente semelhantes. A teologia cristã destaca esse caráter de percepção direta chamando-a sabedoria infusa.
Então, surge a pergunta: essas experiências são fruto da Graça Divina imponderável ou dependem de uma ascese pessoal, desenvolvida com método, sob supervisão de alguém que não seja apenas um teórico, mas tenha vivido aquilo que seu aluno está experimentando, mesmo que, às vezes, o aluno suplante o professor? A resposta nos dá o próprio Sri Ramakrishna - o vento da Graça sopra sempre. Depende de nós levantarmos as velas de nosso barco para sermos movidos por ela.
Se acreditarmos que a Divindade é Amor infinito e Compaixão infinita, como poderíamos pensar que alguém, estando preparado, não receberia a Graça Divina instantaneamente?
Analisando mais profundamente aquilo que denominamos Escola de Sabedoria, o grande Pandit K. T. Srinivasacharyar, segunda autoridade iniciática externa da Suddha Dharma Mandalam, ensina que existem quatro requisitos básicos para que uma escola possa ser chamado Escola de Sabedoria:
1. Shastra: toda Escola de Sabedoria deve ter um corpo de doutrina formado pela revelação obtida nas experiências espirituais de seus Mestres e sustentada pelo Shruti – revelação divina.
2. Upasana: toda Escola de Sabedoria deve ter um método, um conjunto de disciplinas externas e outras puramente subjetivas que conduzam o aspirante às experiências pessoais que transformem a Doutrina em realização pessoal.
3. Diksha: Iniciação.
4. Anubhava: o conhecimento das experiências espirituais reais que certamente advirão para aqueles que receberam as Iniciações e realizaram o Upasana.
Se faltar qualquer um desses elementos a uma Escola ela acaba por se transformar apenas em uma estrutura institucional que, mesmo rica e poderosa, mesmo cheia de belos rituais, não passa de um corpo sem alma. A história mostra que muitas Escolas se transformaram nisso quando foram perdendo o contato espiritual com os Grandes Mestres e se secularizando, dando ênfase à disputa por poder e conflitos diversos.
Permitam-me analisar resumidamente cada um desses elementos à luz dos ensinamentos da Yoga Brahma Vidya – a Ciência Sintética do Absoluto - que é considerada a origem dos diversos sistemas iniciáticos do mundo, guardada no coração dos Sábios desde tempos imemoriais. Suddha Dharma Mandalam é o nome em sânscrito da Grande Fraternidade Branca, que é o grande corpo dos Sábios que protegem a evolução do mundo, sob a direção de Sri Bhagavan Narayana. Ela é responsável, desde tempos imemoriais, pelo treinamento para formação do corpo de Yoguis que se ocupam da instrução e do governo espiritual do mundo.
Shastra:
O corpo de Doutrina está embasado no conceito de Brahm, o Absoluto, a máxima Plenitude – que transcende todo conceito – cujo símbolo é OM. Todo o universo e os seres viventes são, já nesse momento, por natureza, Brahm. Os deuses e os demônios, os seres visíveis e invisíveis, os planos de glória e de obscuridade são, por natureza, Brahm – Sarvam tat kalvidam Brahm – tudo isso é verdadeiramente Brahm e Sarvam Brahma Svabhavayam – tudo é da natureza de Brahm. Esse conceito de máxima plenitude e unidade é, para o aspirante, a força motivadora para todos os seus atos. Ele não vê o Universo como falso (mithya), mas como sendo o próprio Brahm, em essência.
De Brahm emana Atma – a Consciência Cósmica – que é Sat – Verdade ou imutabilidade, Chit – Consciência e Ananda – Bem-Aventurança. Atma compenetra, sustenta e dá vida à outra emanação de Brahm que é a Prakritti – matéria- e essa união (yoga) indissolúvel entre Espírito e Matéria – Atma e Prakritti – gera toda a manifestação cósmica de mundos e seres. O Atma imutável, com sua presença, irradia sua Shakti – poder infinito – que compenetrando a Matéria a coloca em movimento. Surgem, então, as diferenciações da Prakritti, na forma de Tattwas (os elementos da matéria): Mahat, a Mente Divina, Ahamkara, o princípio da individualidade, Manas, a mente emocional, os cinco Tanmatras, ou divinas medidas, os dez Indriyas, sentidos, e os famosos cinco elementos – akasha, ar, fogo, água e terra. Com isso se constrói todo esse teatro cósmico, visível e invisível.
Apesar de, didaticamente, termos colocado todo esse processo em uma seqüência, quero chamar a atenção do leitor para a simultaneidade de todos eles e o extraordinário conceito de que a formação das partes não tira a plenitude do todo que continua sendo, em essência, o mesmo Todo – Brahm. Isto está lindamente expresso no mantra:
OM purnam adah purnam idam purnat purnam udachyate.
Purnasya purnamadaya purnamevavasychyate.
Nessa extraordinária e todo abrangente doutrina, o universo formado por diversos níveis de densidade da matéria única – Prakritti – vai evoluindo no sentido de cada vez maior complexidade e diferenciação para ser equipamento cada vez mais adequado para a expressão dos atributos da Consciência – Atma. Nossas almas individuais eternas – Jivas - formadas por um fragmento do Atma imutável e pelos diversos níveis de matéria são microcosmos onde o jogo máximo dessas formas e forças encontra seu campo e nossa evolução consiste em expressar cada vez mais esses atributos atmicos de sabedoria, poder e glória. Esse objetivo se consegue “atualizando” os poderes (Shakti) do Atma em cada um dos nossos corpos e, para isso, os principais processos são Japa – a repetição dos mantras e Dhyana – meditação nas diversas formas divinas.
Upásana:
A disciplina é chamada Suddha Raja Yoga ou o método puro que nos leva ao contato com Raja – o Ser Supremo. Realiza a síntese de conhecimento (gnana), devoção (bhakti) e ação (karma) pelo Yoga. Sua prática consta da execução de três processos:
1. Bhavana: todos os nossos atos, por mais inconscientes que sejam, têm um bhava ou motivação, a força desejo que o origina. Da natureza ou qualidade do bhava depende o resultado de nossos atos. Como nossas motivações, em geral, provêem de um profundo egocentrismo, baseado no conceito de separatividade arraigado na formação do conteúdo de nossa mente, o Bhavana, em oposição às nossas motivações egocêntricas, é a reflexão constante que todo o Universo visível e invisível com todos os seres que aí vivem e as leis que os regem, está mergulhado e é sustentando pela Consciência Única que, ainda assim, permanece imutável. Em outras palavras é a reflexão constante na Unidade em meio à diversidade, que purifica nossas motivações e modifica os “olhos com os quais vemos o mundo” levando a pacificar os conflitos que provêem da separatividade e a desalojar nosso ego da posição que ocupa em nossas vidas, sendo esta a origem de todo sofrimento.
2. Karma:
Os atos. Eles incluem dois aspectos. O primeiro é o aspecto da ética universal, que consiste em praticar em nossas vidas os princípios da não violência (ahimsa), veracidade (satyavachana) e o serviço ao mundo (loka kainkarya). Eles são a pedra angular da formação do caráter do verdadeiro Yogui e refletem o grau de maturidade espiritual desenvolvido, além de enfatizarem o aspecto fundamental do reconhecimento da presença divina em todos os seres. O segundo é a prática dos atos que nos levam à meditação. A “tecnologia” yóguica da entoação do japa ou repetição dos mantras e do uso dos pranayamas, métodos de controle da energia vital, além dos pujas – rituais purificatórios, invocatórios e laudatórios elevam nossas consciências a um outro nível do não condicionamento e ao reconhecimento daquele aspecto da consciência que não é o fluxo pensante, o observador interno tão elogiado por Sri Krishna no Bhagavad Gita, com o qual, unicamente, se pode meditar. Se não tomarmos contacto com nosso observador interno, o processo se torna um tedioso e frustrante esforço de tentar fazer com que nossa agitada mente possa se direcionar para um único ponto. É por este motivo que os Shastras chegam a dizer que nesse Kali Yuga, a era na qual vivemos, os esforços de concentração mental são penosos enquanto Japa dos nomes divinos se torna agradável e eficiente.
3. Dhyana:
O processo de meditação propriamente dito que é mais bem traduzido pela palavra contemplação, porque se trata do processo de não reflexão sobre um tema, mas manter a Forma Divina em nossa consciência e contemplá-la com amorosa devoção, buscando, com isso, compreender Sua natureza e tornar-se um só com Ela.
Quais são os objetos de adoração dentro dessa visão doutrinária? Existem três possibilidades: a primeira chamada Saguna Brahm, que é representada pela Mente Divina – Mahat – que se expressa como Ishwara – o grande Governante da Evolução Cósmica. Chamamos Náráyaná ao Supremo Governante Cósmico. Também sua Shakti pode ser adorada na forma da Mãe Divina ou ainda através de Suas manifestações como Avatara tais como Krishna, Rama, Buda, Jesus, Mitra Deva e outros. O resultado dessa meditação é o contato com o Senhor, realizando ao saranagati, a entrega absoluta, colocando-se integralmente como Dasa ou servidor da Vontade Divina. A segunda é chamada Nirguna Brahm e se refere ao Ser Único, adorado no santuário de nosso coração, como imutável, eterno, não afetado por nenhum de nossos pensamentos, desejos ou ações. O resultado da meditação em Nirguna Brahm é a identificação completa com Ele, eu e Deus somos um só ou Aham Atma, eu sou o Ser. A terceira é Suddha Brahm – o Supremo Absoluto – adorado como Verdade Suprema e como o todo. O resultado de realizá-lo é a progressiva percepção da Unidade Suprema.
A prática dessa metodologia ou Sádhana é infinita, de resultados progressivos. Sua execução deve ser supervisionada por um instrutor habilitado, que tenha experiência do caminho, conhecimento dos diversos métodos e como aplicá-los de acordo à natureza de cada discípulo. Aqueles professores que atendem estas condições são investidos com a função de Acharyas.
Diksha:
Iniciação. Muitas pessoas entendem Iniciação como um ritual de passagem pelo qual o aspirante é admitido em um novo grau de práticas dentro da Escola. A Sabedoria Perene só reconhece Diksha ou Iniciação como o ato de outorgar uma partícula de Tejas Anu – literalmente átomo de fogo – para o abençoado aspirante através de seu Brahmarandra ou Sahasrara ou chakra situado no topo da cabeça. Essa partícula não é simplesmente “transmissão de energia”, mas um elemento muito especial, impregnado do poder do Senhor Náráyaná – o Único Iniciador – que é transmitido ao aspirante por meio de uma Autoridade Iniciática – é chamado Guru aquele a quem Náráyaná outorgou essa função de Iniciador – e essa partícula produz reações internas nos corpos e na consciência do Aspirante, que permitem um “salto quântico”, para usar uma linguagem moderna, acelerando sua evolução. Diksha é o único instrumento para que Upásana, a disciplina, tenha o poder de produzir Anubhava, as experiências espirituais. Por isso, a tradição milenar de todos os povos enfatiza tanto a necessidade do Guru, porque aquele que verdadeiramente pode desempenhar esse papel funciona como instrumento de Bhagavan Náráyaná para a transmissão de Diksha. As Iniciações são progressivas, abrindo as portas de diferentes níveis de práticas e de realizações para o Aspirante. É importantíssimo chamar a atenção para o fato de que as verdadeiras Dikshas são conquistas indeléveis, não se perdem nem com a morte. São como sementes que, mesmo quando não germinam, permanecem “viáveis” por séculos e os Mestres nunca retiram do Aspirante essa conquista, obviamente dependendo de seus esforços a possibilidade dessa semente germinar e produzir frutos.
Anubhava:
Para aquele que recebe Dikhsa com seu respectivo Upásana e pratica , com intensidade, convicção e constância, desenvolvendo harmonia interna e purificando sua natureza, as verdadeiras experiências espirituais vão acontecendo. Essas experiências são contatos diretos com diferentes níveis de percepção da Realidade Suprema. Elas não têm nada a ver com experiências psíquicas, poderes extra-sensoriais, contatos com entidades invisíveis e outros fenômenos que simplesmente significam ampliação dos cinco sentidos. O discípulo vai adquirindo a capacidade de trasladar sua consciência de um corpo e outro e, em cada um deles, vai realizando o Samadhi ou êxtase que vai descortinando o Ser que reside centralmente em todos os seres, atualizando os poderes de progressiva Sabedoria, Amor Universal e Indivisível Felicidade e vai se tornando um adhikari cooperando no plano divino para a elevação de todos os seres. Assim, através da compaixão e do serviço a todos os seres, o Aspirante exercita os poderes conquistados na prática e manifesta as qualidades divinas das quais ele passa a ser instrumento cada vez mais perfeito.
Entre as Escolas de Sabedoria imemoriais quero chamar a atenção dos leitores para a Suddha Dharma Mandalam que existe de maneira oculta na Índia, na tradição dos Grandes Rishis e Mahatmas que foram os luminares da cultura védica, cuja revelação mais sintética e perfeita se encontra no Srimad Bhagavad Gita, o famosos diálogo entre Bhagavan Sri Krishna e Arjuna. Aqueles que se interessam por trilhar esse caminho das Escolas de Sabedoria poderão participar do treinamento que se iniciará com o Curso de Suddha Raja Yoga a ser ministrado por Ashrams da Suddha Dharma Mandalam no Brasil, sob a direta supervisão do Swami Narayananand Ayurved Saraswati (Dr. José Ruguê).
21.09.05
Artigo extraído do site www.yoga.pro.br
Agradecemos muito a colaboração de todos do yoga.pro.br
Por José Hermógenes
Damos toda a razão a quem pretender com o Yoga melhorar suas condições físicas e psicológicas. Você poderá colher tais frutos. Seu corpo remoçará, como o desejo. Os sinais de decadência física, própria da idade avançada, seguramente serão retardados ou substituídos pelos aspectos juvenis que dão encanto às pessoas moças. As adiposidades desaparecerão. A cor rosada e sadia brilhará em seu rosto. As linhas elegantes, o tórax desenvolvido, a harmonia dos gestos, o porte ereto, tudo enfim que embeleze a figura, se encontram a seu dispor. No plano psicológico, alcançará, concomitantemente, outras tantas vantagens. Ao tratar de cada ásana e de cada pránáyáma, em Autoperfeição com Hatha Yoga e Yoga para nervosos, fiz referência a vantagens terapêuticas. Essas referências foram retiradas de tratados respeitáveis bem como de minha experiência com milhares de casos.
Tão flagrantes e seguros são os proveitos do Yoga que atraíram uma infinidade de aficionados no mundo todo. Como você e eu, homens e mulheres, jovens, velhos e de todas as categorias sociais e profissionais se atiram avidamente à prática. Que pretendem?
Propaganda intensa e eficaz tem divulgado o Hatha Yoga. O conhecimento divulgado, no entanto, é de certa forma infiel. O Hatha Yoga tem sido apresentado como uma nova panacéia, capaz de servilmente recompor a saúde e a forma física de quem delas precisa para triunfos mundanos. Artistas de cinema, elementos do “society”, pessoas ociosas do mundo ocidental abraçaram o Yoga, que se transformou em passatempo, mania, moda, divertimento, sei lá o quê… Evidentemente, uma deturpação lamentável. Tais homens e mulheres, do Yoga só desejam as vantagens, ao mesmo tempo em que se furtam a um austero comportamento e às implicações de ordem espiritual. Verdadeiros tontos, inebriados pelo mais evidente e mais facilmente desejável, praticam Yoga como quem joga um novo tipo de carteado, como quem vai à sauna ou salão de beleza.
Mesmo a essas pessoas o Yoga faz bem, no plano físico. Não faz todo o bem que poderia fazer, no entanto, em virtude de não atuar mais profundamente no plano psicoespiritual. O que um diletante consegue, praticando ásanas por motivos esportivos ou estéticos, é muito menos do que lucraria, se a par de fazer as técnicas, também amasse o próximo, ajudasse os outros e se comportasse com alta dignidade. A saúde e plástica de uma estrela de cinema naturalmente melhoram com os exercícios, mas muito menos do que se ela transformasse sua vida numa permanente oferenda a Deus. Os frutos mais doces da árvore do Yoga só podem ser colhidos nos ramos mais altos e mais tenros, portanto verdadeiramente impraticáveis àqueles cujo egoísmo pesa uma tonelada. Refiro-me às realizações, às experiências e as vivências mais transcendentes e libertadoras. Os diletantes se contentam em apanhar as frutas do chão que os pássaros já não querem.
Contam que um tolo, ao comer bananas, devorava as cascas e lançava fora a polpa saborosa. Da mesma forma, as pessoas vaidosas se iludem dizendo que praticam Yoga quando apenas cultivam o impermanente. Algumas chegam mesmo a se dizerem yogins, quando apenas se contentam com resultados superficiais.
Se no plano físico o Yoga deturpado apenas oferece vantagens menores, no plano ético-espiritual chega mesmo a ser maléfico e luciferino. Já viu o leitor que alimentar o ahamkára (egoísmo) é a fonte de todos os pecados, de toda a fragilidade, dor e angústia. Ao mesmo tempo causa e efeito da vaidade, da cobiça, da inquietude e das vicissitudes, o ahamkára nos mantém exilados da casa paterna. Tudo o que contribui para engordar e criar apego ao eu superficial; tudo o que vier a criar novas ilusões e grilhões novos; tudo, enfim, que levar a crer que o homem é apenas sua posição social, suas vitórias profissionais ou artísticas, que é um amontoado de lembranças, imagens e idéias; tudo o que fizer o homem considerar-se este frágil arranjo temporário de experiências psico-sociais e moléculas químicas; tudo o que o afastar do objetivo último – a unificação – não passa de perigoso inimigo. O Hatha Yoga, mal utilizado, pode ser esse inimigo.
Ora, é certo que morreremos. É certo que somos sujeitos a doenças, acidentes, envelhecimento e dor. Por mais miraculoso que seja o Hatha Yoga, não nos salva dessas coisas. Aliás, elas não são males. São naturais. “A doença é o aluguel que pagamos por morar no corpo”, lembra Ramakrishna. Os sofrimentos são-nos não só naturais, mas também necessários. Porque nos perturbarmos quando ele nos chegar e porque dele tentar fugir? É ainda o muito amado Ramakrishna que nos ensina:
É preciso esquentar o ferro várias vezes e martelá-lo muito tempo, antes que ele possa tornar-se aço temperado. E só então é possível dar-lhe a forma que se deseja e dele fazer uma espada cortante. Da mesma forma, um homem deve passar várias vezes pela fornalha das tribulações, deve ser batido pelas perseguições do mundo antes de tornar-se humilde, puro e capaz de ascender à presença de Deus.
Qual a atitude mais sábia que se deve manter, na doença e em face do envelhecimento? Temê-las? Tentar fugir?
Devemos cumprir tudo o que é possível e razoável, a fim de preservar a saúde e as energias da mocidade. Não devemos, entretanto, fazer nossa felicidade depender de tais coisas. Não devemos desesperar ao cairmos doentes. Não convém entregarmo-nos ao abatimento quando perdemos cabelos ou notamos rugas no rosto. A Sabedoria Universal ensina que só o espírito é eterno. Só ele pode servir de alicerce à nossa felicidade.
Todo aquele, pois, que ouve essas minhas palavras e as observa será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha.
Desceu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela não caiu, pois estava edificada sobre a rocha.
Mas todo aquele que ouve essas minhas palavras e não as observa será comparado a um homem néscio, que edificou a sua casa sobre a areia.
Desceu a chuva, vieram os ventos e bateram com ímpeto contra aquela casa, e ela caiu;
e foi grande a sua ruína.
Mateus, 7:24
Edifiquemos, portanto, a nossa sobre a rocha eterna do espírito.
Há os que se dedicam ao Yoga em busca de siddhis, isto é, poderes psíquicos. É uma outra forma de desvirtuar o Yoga e de colher desenganos. A ninguém é lícito brincar de aprendiz de feiticeiro. Essas pretensões são antinaturais e ainda distraem o discípulo de seu objetivo verdadeiro. Disse Krishna a Arjuna:
Podeis estar certo de que um homem que se esforça para obter os poderes psíquicos não realiza Deus. O exercício desses poderes implica o ahamkára, o egoísmo, que é um obstáculo no caminho da realização.
Quero que o leitor entenda que, se com a prática do Hatha Yoga aspira a lucros mundanos e ligados ao ahamkára, isto é, lucros egoísticos, estará acumulando futuras decepções e perdendo terreno na grande tarefa de sua existência: a libertação, o Reino dos Céus, o “regresso”…
No Hatha Yoga, como em tudo, devemos comportar-nos segundo o preceito evangélico:
Procurai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça,
e todas as outras coisas vos serão dadas de acréscimo.
Se as praticamos com essa disposição, só teremos proveito e nenhum dano.
Se conhecerdes o Único, podereis tudo conhecer.
Os zeros que se colocam depois do algarismo 1 tornam-se centenas de milhares.
Mas se apagardes esse algarismo 1, nada restará.
Ramakrishna
Saúde, beleza, energia, poderes ocultos, eficientes realizações mundanas, tudo enfim que o Hatha Yoga proporciona, são apenas zeros. Zeros e mais zeros enfileirados não fazem mais do que zero, se não forem precedidos pelo “1” da realização do Yoga ou Integração.
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Extraído do livro “Autoperfeição com Hatha Yoga” e digitado por Cristiano Bezerra.
Visite o site do Professor Hermógenes.
28.08.05
Por Dr. José Ruguê Ribeiro Junior
CRM: 14597-MG / instrutor@suddha.net
Yoga é uma das ciências espirituais mais extraordinárias que a humanidade já descobriu. É como um diamante de grandes proporções, contendo muitas facetas cuja luz pode iluminar a totalidade de nossas vidas com grande significado, sendo uma das poucas tradições que se mantiveram inquebrantáveis através da história, ao longo de milhares de anos. Compreendendo todos os aspectos do homem e da natureza, o Yoga pode revelar as mais elevadas potencialidades de ambos.
Os métodos do Yoga compreendem a totalidade do campo de nossa existência – físico, sensorial, emocional, mental e espiritual que conduzem à mais elevada auto-realização. Inclui todos os métodos para a evolução humana – posturas físicas, disciplina ética, controle da respiração, métodos sensoriais, afirmações e visualizações, orações e mantras e uma ampla disciplina meditativa. O Yoga ensina a natureza e inter-relação dos universos físico, sutil e causal incluídos no cosmo infinito, além do tempo e do espaço e nos mostra como eles existem dentro de cada ser humano.
A ciência do Yoga é resultante dos ensinamentos dos Sábios do Himalaia, tal como foram revelados no início de nossa era atual, Kali Yuga, há 12.000 anos. Sua origem é ainda mais remota porque, como consta no Sanátana Dharma Dípika, estes Sábios revelaram aqueles ensinamentos que estavam “guardados em seus corações”. Yoga é a essência da sabedoria de miríades de Sábios através das idades, o avançado legado para impulsionar a evolução humana, adaptado às necessidades de cada era e de cada pessoa.
YOGA E O OCIDENTE:
Atualmente, no ocidente, Yoga é uma palavra comum. Aulas de yoga podem ser encontradas em quase todas as cidades. Pesquisas científicas estão sendo realizadas em várias universidades de todo o mundo demonstrando os benefícios dos diversos componentes do Yoga para a saúde física e psíquica. Empresas buscam as práticas de Yoga para treinamento de seus executivos e funcionários, como terapia anti stress e aumento da criatividade. Muitas pessoas identificam yoga com posturas físicas ou ásanas, que é o lado mais evidente do sistema. Os yoga-ásanas podem representar uma eficiente porta de entrada para o vasto templo do Yoga, mas existem outros elementos que nos levam ao seu altar central, tais como os mantras e a meditação.
Por todos estes motivos tem havido uma procura crescente das pessoas por boas academias e bons professores de Yoga, para conseguirem orientações desde exercícios de posturas (ásanas), passando por alimentação, técnicas de meditação, até um melhor entendimento da profunda filosofia védica, de seus métodos de ação, devoção e conhecimento.
Foram criados cursos de formação de professores de Yoga de diferentes níveis de qualidade, dando ênfase a diferentes aspectos do Yoga, alguns com conotação bastante comercial e de envaidecimento de seus fundadores e dirigentes. Associações de professores foram criadas em várias partes do mundo e, agora no Brasil, procura-se o reconhecimento oficial da profissão.
A Suddha Dharma Mandalam, que é o nome no oriente da Grande Fraternidade Branca, aquela Assembléia dos Sábios do Himalaia, citada no início deste artigo, sendo a origem do Yoga e abarcando a totalidade dos métodos de auto-realização, ainda que dando maior ênfase aos aspectos de Bhávana (concepção da unidade), Karma (atos como Japa dos mantras dos diversos Gáyatris, que conduzem ao terceiro elemento) e Dhyana ou meditação organizou, através da Fundação Sri Vájera, o Curso de Formação Profissionalizante de Professores de Yoga, que está em seu terceiro ano de funcionamento. Os professores assim formados têm se dedicado com grande carinho e conhecimento ao trabalho de ensinar e treinar aos mais diferentes grupos em academias, universidades, hospitais, centros comunitários e na sede da própria Fundação, em Uberlândia. Já foram formadas pessoas de diversas cidades do Brasil como Uberlândia, São Paulo, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Brasília, Goiânia, Ituiutuba, Araguari, Ribeirão Preto, Franca e outras.
Nosso objetivo, agora, é congregar os diversos professores de Yoga, não somente aqueles formados em nossos Cursos, mas todos que estão empenhados na nobre tarefa de vivenciar e ensinar o Yoga, sem limites regionais, para formarmos a ASSOCIAÇÃO DE PROFESSORES DE YOGA DO BRASIL CENTRAL.
Múltiplos benefícios podem advir dessa Associação: cursos de aperfeiçoamento, organização de Congressos, palestras, viagens de treinamento, um banco de oportunidades no qual empresas, cidades, comunidades, associações de bairros e outras entidades, que estão sempre nos consultando sobre projetos de Yoga, poderão alocar professores. Participar das diversas discussões que estão em andamento para a oficialização da profissão e tantos outros benefícios.
Esta Associação terá seu funcionamento independente, com sua Diretoria própria e sede em Uberlândia-MG.
A primeira Assembléia Geral para inauguração da Associação OCORREU DIA 10 DE JUNHO DE 2001 (DOMINGO) no Suddha Sabha, Ashram no campo, situado no município de Araguari, sede da Fundação Sri Vájera e da Escola Yoga Brahma Vidya, da Suddha Dharma Mandalam, local de grande beleza natural e muito apropriado para a meditação, onde se realiza o Curso de Formação de Professores de Yoga (Básico e Avançado) e onde está instalada o SPA Ayurvédico Kalayasa, de medicina ayurvédica.
Venha participar deste evento e das atividades de Associação. Informe-se pelo telefone (34) 3235-3571.
28.07.05
Tida como a ciência médica mais antiga do mundo, a Ayurveda trata o ser humano como um todo, buscando o estado de saúde pleno e a harmonia na vida.
Por Dr. José Ruguê Ribeiro Junior
CRM: 14597-MG / instrutor@suddha.net
A Medicina Ayurvédica é um sistema desenvolvido pelos antigos Sábios da Índia, tendo a mesma origem dos sistemas de meditação, yoga e astrologia, baseada nos milenares Vedas (verdade). Estes textos cuja origem no tempo é desconhecida são, originalmente, em número de quatro: Rig, Sama, Yajur e Atharva. Os assuntos tratados são saúde, astrologia, o caminho espiritual, governo, treinamento de guerreiros, poesia e ética. O Rig Veda contém 10572 hinos sobre as tipologias humanas, considerando o transplante de órgãos, uso de ervas no tratamento de doenças físicas e psíquicas e a obtenção da longevidade. O Atharva Veda contém 5977 hinos sobre anatomia, fisiologia e cirurgia. Eles citam os médicos celestiais (Brahma, Daksha Prajapati, os Kumaras e Indra) e consideram Dhanwantari o divino Pai da Ayurveda. Este Ser Celestial é invocado sempre nas atividades ayurvédicas.
Divodasa Dhanwantari desenvolveu a escola de cirurgia da Ayurveda, provavelmente entre os séculos nove e seis antes de Cristo, surgindo um dos textos fundamentais da Ayurveda denominado Sushrut Samhita.
O Sábio Kashyapa desenvolveu as escolas de pediatria e ginecologia e o Sábio Bharadwaj, considerado o pai humano da Ayurveda, teve como discípulo Atreya que desenvolveu a escola de clínica médica e escreveu, provavelmente no primeiro século depois de Cristo, o Charak Samhita, outro texto fundamental da Ayurveda. Estes dois grandes tratados foram seguidos do Ashtanga Hridayam, uma versão concisa dos anteriores, escrito no século oito depois de Cristo. Conseqüentemente a Medicina Ayurvédica é o sistema médico mais antigo do mundo. Este sistema foi absorvido pelos chineses, tibetanos, gregos, romanos, egípcios, persas e outros que viajavam para terem contato com a sabedoria e retornarem às suas terras de origem. O Caminho da Seda das Índias estabeleceu a rota entre a Ásia, o Meio Oriente e a Europa, provendo a ligação entre as culturas.
Nas Escolas da Índia antiga os estudantes eram treinados em oito “especialidades” da Ayurveda:
- Medicina Interna
- Ouvidos, nariz e boca.
- Toxicologia
- Pediatria
- Cirurgia
- Psiquiatria
- Afrodisíacos
- Longevidade
Nas minhas pesquisas, que já levam mais de vinte e cinco anos, compatibilizando os sistemas tradicionais e chamados “alternativos” com a medicina alopática convencional, não encontrei nenhum sistema mais completo e mais holístico (integral) que a medicina ayurvédica. Ela enfatiza terapias preventivas e curativas, por vários métodos de eliminação de toxinas do corpo e da mente, levando a um melhor funcionamento celular que consubstancia o tão propalado conceito de longevidade e “rejuvenescimento” deste sistema médico. Ayurveda é mais que um mero sistema de saúde. Ela é uma ciência e uma arte do apropriado viver, que ajuda a obter longevidade. Ela pode guiar todo indivíduo na escolha apropriada da dieta, hábitos de vida e exercícios que restauram o equilíbrio do corpo, da mente e da consciência, prevenindo doenças e tratando enfermidades já instauradas.
De acordo com a Ayurveda, todo ser humano é um fenômeno único da consciência cósmica, manifestado através dos cinco elementos básicos da natureza (terra, água, fogo, ar e akasha). Obviamente, os nomes terra, água… não se referem aos elementos tais como os conhecemos atualmente, mas a estados da matéria. A física quântica, nas suas teorias e pesquisas de ponta, descreve o universo como uma possibilidade dentro da consciência, corroborando a percepção dos antigos Sábios.
A combinação destes cinco elementos forma três organizações do corpo ou tipologias, que são:
- Vata - éter mais ar – leveza, estrutura esguia, rapidez nas atividades, fome e digestão irregulares, sono leve e interrompido, entusiasmo, vivacidade, imaginação; excitabilidade, mudança de humor, tendência à preocupação, energia física e mental em explosões repentinas.
- Pitta - fogo mais água – constituição mediana, temperamento empreendedor, gosto por desafios; inteligência aguçada, muita fome, sede e boa digestão; tendência à raiva e irritabilidade sob tensão; aversão ao sol e ao calor; caloroso e ardente nas emoções, quando equilibrado.
- Kapha - água mais terra – constituição forte e sólida; energia constante, gestos vagarosos e graciosos; personalidade calma e tranqüila; tendência à obesidade; afeição, tolerância e generosidade; tendência à possessividade e complacência; buscar consolo emocional nos alimentos.
Todo temperamento psicossomático ou constituição é determinado por estes três doshas no momento da fecundação. Quando o embrião é formado, sua constituição está determinada, tal como o código genético e determina essas características até a morte física. Existem sete constituições básicas de acordo com a Ayurveda:
vata
pitta-kapha
pitta
kapha-vata
kapha
vata-pitta-kapha
vata-pitta
Este código energético original tem, em cada ser humano, seu próprio e único equilíbrio de V-P-K de acordo com sua própria natureza. Este equilíbrio V-P-K é a ordem natural. Então, quando este equilíbrio dos doshas está perturbado, origina-se o desequilíbrio, que é desarmonia. Saúde é harmonia; doença é desarmonia. No corpo há uma constante interação entre harmonia e desarmonia. Se entendermos a natureza e estrutura da desarmonia, poderemos restabelecer a harmonia. A Medicina ayurvédica acredita que esta harmonia repousa dentro da desarmonia.
Para que se estabeleça e se mantenha esta ordem (harmonia), que é o estado de saúde, na concepção ayurvédica, é preciso que:
- AGNI, o metabolismo, representado pela capacidade de digestão (transformação dos alimentos em energia) esteja em condição balanceada;
- As energias básicas do corpo (Vata, Pitta e Kapha) estejam em equilíbrio;
- Os três elementos de excreção (urina, fezes e suor) sejam produzidos e eliminados normalmente,
- Os sete tecidos do corpo – rasa (plasma), rakta (glóbulos sanguíneos), mamsa (músculos), meda (tecido gorduroso), asthi (tecidos ósseo e nervoso), majja (medula óssea) e sukra (tecidos reprodutores) estejam funcionando normalmente;
- A mente, os sentidos e a consciência estejam trabalhando em conjunto e de maneira harmoniosa.
Quando o equilíbrio destes sistemas é perturbado, a doença (desarmonia) inicia seu processo.
O ambiente interno é governado por V-P-K que estão em constante interação com o ambiente externo. Uma dieta inadequada, hábitos, estilo de vida, combinação de alimentos incompatíveis, mudanças de estação, emoções reprimidas e fatores de stress podem agir em conjunto ou separadamente para mudarem o equilíbrio de V-P-K. Isto leva, entre outras coisas, a um processo digestivo inadequado. As bactérias intestinais, responsáveis pela fermentação e putrefação destes restos de alimentos mal digeridos, transformam este conteúdo em toxinas como o indol, o escatol, a cadaverina e a putrescina (algumas substâncias já identificadas como altamente tóxicas). Os próprios alimentos que ingerimos em nossa “dieta moderna” já estão repletos de toxinas. Esta toxicidade acumulada, uma vez bem estabelecida, irá vagarosamente afetando prana (energia vital), ojas (imunidade) e tejas (energia do metabolismo celular) resultando em doença.
O médico com formação ayurvédica deve ter profundo conhecimento da filosofia védica e de sua extensa psicologia, das técnicas do yoga e meditação, das ervas medicinais e dos processos de desintoxicação física e psíquica.
O atendimento começa por uma completa consulta médica que inclui a semiologia e propedêutica médica ocidental e a definição do dosha (código energético original) e os desequilíbrios existentes, através de um cuidadoso exame que inclui um grande número de características físicas e psíquicas. Em seguida, inteiramente baseado nesta definição, é instituído o tratamento que inclui:
- Meditação: o ponto culminante do tratamento. É o solo fértil onde se enraízam todas as outras formas terapêuticas. Sem a meditação não se completa o verdadeiro potencial curador da medicina ayurvédica. Uma técnica específica é fornecida a cada cliente para ser praticada diariamente.
- Dieta: Há um complexo conhecimento do efeito dos diversos alimentos sobre estas energias originais levando ao equilíbrio ou à desarmonia. Os alimentos mais apropriados, a forma de prepara-los, o uso de temperos adequados, as associações corretas, jejuns periódicos são alguns dos elementos da dieta. Assim, por exemplo, Vata deve dar preferência a alimentos cozidos, quentes e energéticos e a refeições freqüentes; Pitta alimentos frios, crus e coloridos e evitar excesso de condimentos; Kapha evitar alimentos gordurosos e com muitos líquidos e utilizar condimentos que estimulam a digestão e o metabolismo, como o gengibre.
- Ervas medicinais: cultivadas em lugares especiais, colhidas e processadas de maneira a conservar não só suas propriedades bioquímicas, como também energéticas e espirituais, têm um relevante papel no tratamento medicamentoso da ayurveda.
- Rotina diária: as 24 horas do dia são divididas em ciclos que sofrem a influência predominante de um dos três doshas (V-P-K). Com este conhecimento procura-se adaptar a rotina diária de horários de atividades, alimentação, repouso, meditação e sono nos períodos que sejam mais benéficos e que possam promover a saúde. Assim, por exemplo, levantar bem cedo, meditar ao nascer do sol, fazer do almoço a principal refeição do dia, não comer à noite e não dormir muito tarde encontram respaldo lógico nos ciclos diários.
- Panchakarma: são processos de desintoxicação profunda. Incluem técnicas preparatórias e principais. Entre as primeiras estão:
- Shirodhara: fluxo contínuo de óleo morno, acompanhado de medicamentos, no centro da testa, produzindo profundo relaxamento.
- Abhyanga: massagens feitas com óleos associados com ervas medicinais, com estímulos de pontos energéticos chamados marmas.
- Svedhana: banho de vapor aquecido medicado.
- Garshana: estímulo da pele realizado com uma luva de seda e pós medicinais.
Entre as técnicas principais:
+ Vamana: limpeza gástrica
+ Virechana: uso de laxantes com medicamentos ayurvédicos.
+ Basti: enemas feitos com ervas medicinais.
+ Nasya: limpeza nasal
+ Rakta moksha:
- Yoga: exercícios psicofísicos associados a técnicas respiratórias, devidamente preparados e adaptados a cada pessoa.
Se você deseja utilizar estes conhecimentos básicos da ayurveda de maneira preventiva em sua vida, inicie lendo dois bons livros em português: A Ciência da Auto Cura de Vasant Lad e Saúde Perfeita de Deepak Chopra. Procure se aproximar do diagnóstico adequado de seu dosha e dos desequilíbrios existentes fazendo uma auto-análise à luz dos conhecimentos desses livros. Em seguida, adapte sua alimentação, progressivamente, à tipologia que você considera mais próxima da sua. Busque utilizar os temperos adequados em sua alimentação. Faça Yoga de acordo com suas características. Medite diariamente. Para isso, procure a orientação de um professor com experiência e formado de acordo com os métodos tradicionais do Yoga. Inclua a dimensão espiritual em sua vida, ou seja, busque o aspecto devocional por aquele aspecto do Supremo que mais lhe toque o coração. Cante Mantras quando acordar (agradecendo a oportunidade de um novo dia de experiências), ao tomar banho, em sua prática diária, antes de alimentar-se, antes de dormir. “Sacralize” sua vida e os elementos que a compõem e você verá que precisará muito menos de antiinflamatórios, antibióticos, analgésicos, calmantes, antidepressivos, etc., poderá alcançar longevidade, força física e uma sensação de bem estar que se expandirá para aqueles que o cercam. A felicidade é fruto da paz interna e aquele que está feliz é, naturalmente, bondoso. Assim, vive o Dharma doce como o néctar (susukham kartum) tal como ensina Sri Krishna, afastando-se do conceito de que só a dor purifica e eleva o homem(!).
Este breve e incompleto resumo da medicina ayurvédica não pode terminar sem dizermos que ela, mais que todos os outros sistemas médicos, traz de volta o sagrado direito e dever da auto-responsabilidade sobre nossa própria saúde e bem estar, porque enfatiza aquilo que todos sabem, mas poucos praticam e, pior ainda, poucos médicos dão a necessária ênfase na prática diária com seus clientes, de que a saúde se promove com alimentação adequada, exercícios físicos e estado mental positivo.
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* Artigo editado na Revista Sexto Sentido n°21 pelo Dr. José Ruguê Ribeiro Junior
“Ayurveda a Ciência Médica da Vida Longa”
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