Biotoxinas – Ama – seu papel destrutivo no corpo e na mente

In: Artigos|Ayurveda

6 ago 2013

Vou colocar, todas as terças e quintas-feiras, alguns artigos que tenho escrito para diferentes revistas e jornais, sobre o Yoga, Ayurveda e os demais aspectos do Sanátana Dharma. Aqui vai o primeiro sobre o importante tema de AMA – as biotoxinas

carboidratos1Um dos mais extraordinários conceitos do Ayurveda no entendimento dos fatores que causam desarmonia e doença no corpo e na mente é o de Ama – as biotoxinas.  Desde os primórdios do período Védico, Ama já é reconhecido por seu potencial mórbido e usado como sinônimo de doença. O Rig Veda Samhita (provavelmente 1500 anos AC) utiliza os termos Amayata e Amamata. No Atharvaveda (considerado em torno de 1000 anos AC) Amaya e Amayam são usados no sentido de doenças causadas por uma substância tóxica Ama.

Como se forma Ama:

Tudo parte do princípio que todos os alimentos que entram em  nosso organismo,  sejam eles físicos, como os alimentos sólidos, líquidos e o ar, sejam eles mentais, como impressões, pensamentos e emoções, devem passar por um processo de metabolização ou digestão, para serem assimilados devidamente pelo nosso organismo.

Isto se dá em três níveis principais:

1º.   Da digestão geral que começa na saliva e vai até o intestino, chamada digestão primária – Jatharagni Paka.

2º.   Do fígado, onde os nutrientes assimilados vão passar pela digestão secundária, específica dos cinco grandes elementos – terra, água, fogo, ar e espaço – chamada digestão secundária ou Bhutagni Paka.

3º.   Das células, o principal objetivo de toda nutrição, levar ao nível das células os nutrientes e oxigênio, para que as células possam desempenhar suas funções, dentro dos tecidos e estes dentro dos sistemas e estes formando a homeostasia ou harmonia do funcionamento do organismo. É chamado nível celular ou terciário da digestão – Dhatwagni Paka.

Assim, todos os alimentos, no sentido amplo da palavra, físicos e mentais, quando digeridos nos três níveis citados acima, se transformam em três tipos de substâncias:

  1. Os nutrientes, que devem ser absorvidos e vão se transformar em estrutura, em energia e participarem das diversas funções de nosso corpo e mente.
  2. Os dejetos, que são aquela parte dos alimentos que não serão absorvidas pelo organismo e que devem ser eliminadas, mas que, enquanto estão no organismo saudável, desempenham funções primordiais, como, por exemplo, formando o bolo fecal. As fibras na dieta têm esse papel. Também estão incluídos nos dejetos os produtos de excreção da digestão celular.
  3. A energia sutil dos alimentos, que vai se incorporar, formar e nutrir nossa mente.  Esta energia sutil presente em todos os alimentos físicos ou mentais, se manifesta por meio de seus atributos um Gunas, gerando, na mente, o “campo” para a harmonia – Sattwa – ou para a atividade excessiva –  Rajas – ou para a inércia – Tamas. O que significa que os alimentos devem ser observados não só pelo seu valor nutricional em termos de vitaminas, proteínas, carboidratos, micro elementos, mas, também pela capacidade de produzirem em nossas mentes estas Trigunas.  A mente reage ao mundo de acordo com o predomínio de uma destas qualidades o que determina uma reação nossa diante da vida, de caráter harmonioso, agitado ou obscuro. E estas qualidades se impregnam em nossa mente de acordo com a Guna daquilo que nos serve de alimento, em termos de comida, impressões, pensamentos e emoções. Isto explica como, dentro do Ayurveda, uma dieta Sattwica é prescrição primordial para o tratamento de problemas psiquiátricos! Este é outro tema espetacular que podemos tratar nos próximos números da revista.

No excelente desempenho de todo este processo digestivo primário, secundário e terciário (Agni), na correta separação do que é nutriente e dejeto (Samana Vayu e Pachak Pitta), na correta integração dos nutrientes em nossos tecidos (Vata, Pitta e Kapha) e na eficaz eliminação dos dejetos (Apana Vata), está o principal segredo para a saúde, a beleza e a longevidade.

A capacidade transformadora dos alimentos em nutrientes e dejetos é chamada Agni – o fogo digestivo. O Agni mental nos dá o discernimento, a capacidade de compreensão. A redução deste Agni é considerada pelo Ayurveda como o primeiro fator causal para as doenças, chamado Pragnyaparada ou uma agressão contra nossa própria consciência, que se manifesta nas escolhas inadequadas. As escolhas inadequadas de alimentos, sem levar em conta as combinações adequadas, o horário, o estado da digestão, a idade e outros fatores, tendo como motivação o sabor ou conceitos errados de alimentação; as escolhas inadequadas de estilo de vida, anseios, lutas, ambições, relacionamentos e tantas e tantas escolhas que fazemos na vida e, quando elas se tornam mecânicas, devido ao hábito, formam nosso caráter, nossos condicionamentos, que “engessam” nossas vidas e geram tantos sofrimentos e, muitas vezes, um sentimento de impotência.

O Yoga é o melhor antídoto para o Pragnyaparada. Toda a ascese do Yoga que Patanjali chama de Kriya, no segundo capítulo de seu Yoga Sutra, incluindo Swadhyaya – o estudo de nossa real natureza, incluindo os conhecimentos ayurvedicos sobre o funcionamento e relações entre corpo, prana, mente e alma; Tapas: a execução de nossas disciplinas que inclui asanas, pranayamas, ritos, repetição dos mantras e meditação e, ainda,  Ishvarapranidhana , a devoção nos levam ao despertar e avivamento deste Fogo da Consciência, chamado tecnicamente no Ayurveda Sadhaka Pitta, que brilha na forma de Tejas, a Luz da Consciência.

rugue com rishi kumarasPortanto, podemos perceber que o principal componente para este desempenho excelente da transformação dos alimentos em nutrientes e energia, definindo, assim, a performance de nossa máquina é o Agni,  em todos os seus níveis: o Agni da digestão no estômago e intestino, o Agni dos cinco elementos no fígado, o Agni das células, o Agni mental e o Agni de natureza espiritual que é Kundalini.

Em fisiologia estudamos sempre a digestão como um processo completo, ou seja, como se 100% dos alimentos ingeridos se transformassem em nutrientes e dejetos.  Mas, de fato, raramente conseguimos tal otimização de nossa máquina digestiva, muito sensível a uma diversidade de fatores, inclusive emocionais. Falamos sempre em otimização de processos nas empresas, na profissão, mas quase nunca a pessoa se interessa em conhecer, em perceber seu próprio organismo para saber qual o grau de eficiência de sua digestão e quais implicações isso tem sobre sua vida.

Muitos conhecem bem a otimização do desempenho de um carro, mas não usam o mesmo princípio para si mesmos. Então, vamos utilizar esse exemplo! Para o ótimo funcionamento do motor de um carro, devemos colocar o combustível da melhor qualidade. Ele penetra nos pistões, junto com o ar, impulsionado pela bomba injetora. Produz-se uma fagulha que faz a combustão. Isso gera energia que se transmite às rodas e o carro se move. O ótimo desempenho seria produzir o máximo de energia com a mínima produção de fumaça pelo cano de escapamento! Quando o motor está “desregulado” consome muito combustível, produz pouca força e muita fumaça pelo cano de escapamento. Imediatamente levamos a uma oficina porque, em geral, as pessoas não suportam andar em carros “desregulados”.

Transferindo esse exemplo para o caso biológico, o bom desempenho implicaria na boa escolha dos alimentos, o Agni sempre funcionando na sua melhor capacidade, adaptando os hábitos alimentares ao estado do Agni de cada um, a cada momento, e, um bom processo de eliminação dos dejetos.

Quando essa relação do processo digestivo não se faz adequadamente, parte do alimento não é completamente digerido e, estes restos de alimentos não digeridos vão passar ao intestino, no caso da digestão geral e, por si mesmos ou pela ação dos microorganismos existentes no intestino, vão se transformar em substâncias altamente agressivas ao organismo. Essas substâncias são chamadas, em conjunto, Ama. Portanto, Ama não se refere a toxinas externas, mas àquelas produzidas pelo próprio organismo, pela digestão incompleta dos alimentos. Diariamente o organismo às elimina através das fezes.

Primeira etapa: Assim, olhe suas fezes! Se elas estiverem mal formadas, com restos de alimentos, se se dissolvem na água do vaso sanitário ou vão para o fundo, então, atenção: você está formando esta tóxica substância que é Ama. Observe seu Agni e mude sua alimentação!! Mas, até aqui, tranqüilize-se! Seu espetacular organismo está conseguindo eliminar!

Segunda etapa: Mas, quando estas substâncias são retidas, vão provocar em você o seguinte quadro:

  • Sensação de náusea após comer e perda do apetite.
  • Constipação intestinal ou diarréia
  • Distensão abdominal, com formação de gases.
  • Sensação de muito cansaço, peso no corpo e letargia (algumas são tratadas como depressivas!)
  • Mente cansada, pesada.
  • Cobertura sobre a língua, que pode ser esbranquiçada, amarelada ou acinzentada e que não sai após limpar a língua, ou, se sai, retorna rapidamente.
  • Às vezes, azia com refluxo.

De acordo com o Ayurveda, estes são os sinais de SaAma Dosha, o segundo passo para a formação de toda e qualquer doença. 

Depois disso, esse Ama transborda para os o plasma e vai circular para todo o organismo produzindo a:

Terceira etapa: a invasão dos órgãos e tecidos gerando uma reação química com aqueles tecidos que estejam com a imunidade comprometida, gerando todas as patologias. Se o órgão com imunidade comprometida for a mente, isso provocará o aparecimento de problemas psicológicos e psiquiátricos. Na Medicina Moderna este Ama que invade os tecidos pode ser traduzido por radicais livres, substâncias oxidantes, colesterol elevado, ácido úrico, uréia, creatinina, substâncias que inibem a serotonina e a dopamina, complexos antígenos-anticorpos, presentes em todas as doenças auto-imunes e tantas outras substâncias.

Então, atenção, atenção! Siga algumas regrinhas simples:

  1. Olhe para sua língua todas as manhãs, limpe-a e veja se retorna aquela saburra. Decida o que e quando comer baseado nisso.
  2. Tome água morna pela manhã
  3. Só coma se tiver fome real. Observe o comportamento de sua fome real, orgânica. As pessoas de natureza Pitta têm fome freqüente. As de natureza Kapha têm fome pequena mas constante e podem comer mesmo sem fome, o que os torna grandes geradores de Ama. Os Vata têm a fome irregular, muito sensível à sua excitabilidade ou emoção.
  4. Observe se a refeição anterior já foi digerida antes de comer novamente (regra áurea!). Como posso saber? Observe os seguintes detalhes:
    1. Sensação de leveza no estômago 2 ou 3 horas após haver comido.
    2. Ausência de sintomas de indigestão como salivação excessiva, empachamento e náusea.
    3. O arroto já não traz o sabor do alimento.
    4. Evite associações incorretas de alimentos, como carnes, ou peixes ou aves com laticínios. Iogurte com frutas ácidas, excesso de alimentos crus, principalmente no inverno.
    5. Faça um jejum, na forma de monodieta, periodicamente. Para os Kapha deve ser semanal, para os Pitta, quinzenal e para os Vata, mensal. Utilize chás de ervas, maçãs cozidas e apenas o caldo de sopas de legumes para Kapha. Sucos de clorofila, maças cruas para Pitta, principalmente no verão. Leite orgânico de vaca feliz, fervido com cardamomo e gengibre ou um purê de cará ou inhame para Vata, por um dia completo.
    6. Estimule o Agni sempre que perceber que sua digestão não está perfeita, ou seu apetite está reduzido ou irregular ou se sente indisposto. Uma mistura em partes iguais de gengibre em pó, ghi e açúcar mascavo, tomando em jejum, todas as manhãs, uma colher de chá, por 7 dias é um bom estimulante do Agni.
    7. Utilize temperos em sua alimentação. É lamentável que em um país como o Brasil, tão rico na diversidade de temperos, as pessoas só utilizem dois ou três temperos em sua culinária diária. Gengibre, cúrcuma, cominho, coentro, cardamomo, canela, cravo, pimenta do reino, pimentas, fenogrego e outros devem ser incorporados em nossa alimentação diária de acordo com nossas necessidades.
    8. Observe o clima: períodos mais frios exigem a utlização de alimentos mais cozidos e com mais temperos “quentes”. Isso se aplica principalmente se estiver frio e úmido. Se estiver frio e seco acrescente azeite de oliva e ghi na sua alimentação. O clima quente recomenda alimentos mais crus, saladas coloridas, massas mais leves, arroz, legumes, brotos e mais frutas.
    9. Não faça exercícios pesados com fome. Eles reduzem o Agni no momento e aumentam depois de algumas horas.
    10. Transforme sua refeição em um momento sagrado. Evite conversar demasiadamente, discutir problemas, barulho. Invista em você! Coma o melhor alimento, bem preparado, por pessoas que você conheça e confie e que gostem de você!!!! Reverencie seu Agni dando a ele o alimento na medida certa para ele. Nem mais nem menos!!!! Não são suas teorias sobre alimentação o que deve predominar ou essa paranóia da magreza.
    11. Faça comida para as pessoas que você gosta. Compartilhe! Quando estamos felizes nosso Agni se torna ótimo. Quando estamos tristes tudo faz mal, porque nosso Agni se apaga.

Portanto, essas são algumas recomendações gerais. Os médicos e terapeutas ayurvedios podem dar orientações mais específicas de acordo com a constituição, o desequilíbrio, o momento e outros fatores. Reverencie seu Agni e vigie a formação de Ama, tomando medidas adequadas aos primeiros sinais. Esta é a maneira inteligente de viver, proposta pelo Ayurveda.

 

Dr. José Ruguê

narayanananda@gmail.com 

www.suddha.net 

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5 Responses to Biotoxinas – Ama – seu papel destrutivo no corpo e na mente

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margarida barros

agosto 7th, 2013 at 22:51

Excelente texto bem orientador. sou grata por alguém escrever sobre toda essas informações de forma bem simples.

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alair lala barros

agosto 8th, 2013 at 04:42

Gostei muito. Pois ontem fui hospitalizada. Um dia inteiro de examrs cardiovasculates e o diagnóstico negativo. Nao tinha nada!

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Telma R. Pereira

agosto 8th, 2013 at 23:39

Bom, adorei o texto, gostei muito de aprender um pouco sobre a energia sutil dos alimentos. Acredito que o tema seja muito bom e verdadeiro! Deveria talvez, se escrito em fases, para os não familiarizados com a Ayurveda digerirem o texto aos poucos.
Obrigada pelos ensinamentos!

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Elisabeth Migliavacca

agosto 20th, 2013 at 21:27

Caro Dr. Rugue, adorei a consulta e adorei esse artigo. Tudo tão simples, se tivesse já tido essa orientação anos atras, talvez muita coisa teria sido evitada. Mas, agora ‘e uma nova estrada. Namaste! Gratidão!

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Fernando Carneiro

abril 24th, 2014 at 09:52

Prezado Dr. Ruguê,
Um prazer enorme ler o seu artigo! Gostaria que o Sr. pudesse ver o nosso filho que tem um problema crônico de escamação no couro cabeludo e, com absoluta certeza, a medicina ayurvédica poderia curá-lo. Eu moro em Rio das Ostras, RJ e qualquer orientação que o Sr. pudesse nos dar seria uma benção! Tudo de bom e parabéns pelo notável trabalho de nos trazer esse conhecimento! Namastê!

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