A adoração do Supremo na forma da Devi – a Mãe Divina

In: Assuntos Gerais

10 Oct 2011

De 28 de Setembro a 05 de Outubro tivemos um especial período de adoração. Trata-se do Navarathri Puja, as nove noites de adoração à Devi, à Mãe Divina, à Shakti, em suas infinitas formas. O Supremo se manifesta como Shakti, seu aspecto dinâmico. Nossos Pujas e meditações culminaram com o Vijaya Dasami, o décimo dia de glorificação. A propósito deste período, refletir sobre a necessidades de adorar a Deus como Shakti, é de fundamental importância. Por esta razão, reproduzo aqui meu prefácio de edição em português do livro Yogini, revelando a Deus Interior, escrito por uma devota da Devi, Shambhavi Chopra.

Todos os anos, em um período astrologicamente determinado, entre os meses de setembro e novembro, os hindus e todos os fervorosos estudantes do Sanátana Dharma adoram a Maha Devi, a Grande Deusa, por nove dias consecutivos, colocando em cada período de três dias, um de Seus aspectos e concluem o Puja (culto divino) no décimo dia, chamado Vijayadasami ou dia de glória, adorando a Maha Shakti Devi ou Yoga Devi, o Supremo Poder.

Nas religiões semíticas como o islamismo, judaísmo e cristianismo, Deus é adorado como Pai. O culto à Mãe parece novo e estranho aos adeptos dessas religiões. Em realidade, o culto à Mãe Divina é mais antigo que o de Deus como Pai. Essencialmente, Deus não é masculino nem feminino. É a Realidade Absoluta. Mas sua adoração se faz, na relatividade da compreensão humana, dentro de padrões de percepção possíveis ao ser humano. Assim, as sociedades mais antigas, sendo matriarcais, tendo a mãe e esposa como chefe de família, se empenharam no culto a Mãe Divina, reconfortante para a mente, pois ninguém poderia superar a mãe em seu afeto para com o filho. Esta idéia era de grande ajuda para o devoto. No Svetasvatara Upanishad há um verso que diz: Tu és mulher; Tu és homem; Tu és mancebo; Tu és também donzela; Tu és o ancião que vacila com sua bengala; Tu nasceste com Teu rosto voltado para todos os lados. Este verso nos dá a percepção da múltipla manifestação divina. Esse culto à Devi, ao Poder Divino, foi chamado Shakta do qual participa o Tantra, sistema tão extraordinária, mas tão mal compreendido no ocidente, que tem dado guarida, pela ignorância, a toda sorte de distorções envolvendo o uso da sexualidade na busca da Plenitude. Outras formas de adoração divina surgiram unificando o culto a Deus como Pai-Mãe, tais como Shiva e Shakti, Náráyaná e Yoga Devi, Rama e Sita, Krishna e Radha, tão decantados em versos de profundo sentido devocional, repetido pelos aspirantes espirituais em suas cerimônias diárias.

Mas, consideremos a questão: qual o significado do culto à Mãe Divina e como pode nos auxiliar a cumprir as aspirações da vida humana neste mundo?

A chave para a compreensão do culto à Mãe Divina nos dá um verso entoado pelos Sadhakas em suas meditações diárias:

OM Bhagavate Narayanasya Shaktim Yogadevim Suddha Teja swarupe upase. Lokashankarim Shaktim Sanah prachodayat.

Medito em Sri Yoga Devi, o esplendor de Náráyaná, formada de pura luz. Possa Ela vivificar em mim seu poder de fazer o bem nos mundos.

 

A definição da Mãe Divina, Yoga Devi, como o esplendor de Náráyaná, formada de pura luz nos remete à compreensão profunda do conceito da Shakti. Náráyaná, aqui, é o Pamareshwara, Aquela Consciência Suprema, Eterna, Imutável, Única, Imanente e, ao mesmo tempo, Transcendente, substrato do universo, mas não afetado por ele (Nirguna Brahm). Podemos dizer que Ele é a Consciência em seu estado potencial (Sat Chit). Dele emana a Shakti, Seu Poder dinâmico que se transforma na multiplicidade de seres e formas, do angélico mais luminoso ao denso mais obscuro. Ela, a Shakti, é idêntica a Ele, o Purusha, em essência. Ela causa a origem, a sustentação e a destruição do universo. A Shakti é a mesma Realidade Suprema manifestada como Força ou “impulso vital”. O Sammohana Tantra diz: “Sem Prakritti ou Shakti não poderia existir o samsara (processo do mundo). Sem Purusha ou Shiva não se pode alcançar o verdadeiro conhecimento. Portanto, os dois devem ser adorados: Mahakali e Mahakala”. Portanto, para aqueles que compreendem o Universo como uma “condensação” da Shakti e, neste papel Ela é chamada Mayá, não há espaço para se traduzir esta palavra como ilusão. Em outras palavras, o Universo não é uma ilusão, mas sim o campo de atuação dos Jivas ou almas evolutivas em sua eterna aproximação ao Supremo e a Divina Mãe proporciona esse campo. Por sua característica de mutabilidade ou transformação ele, o universo, é chamado verdade relativa e Brahm, a verdade absoluta, caracterizada pela imutabilidade, essencial em tudo

Coloquemos um exemplo para tentar elucidar tema tão profundo. Quando dizemos que o Sol dá vida a Terra, não nos referimos à possibilidade dele sair de seu lugar no centro do sistema solar e vir à Terra proporcionar os atributos da vida. Entendemos que sua luz, que possui inerente todas as suas qualidades, emanando dele, chega à Terra e, interagindo com nosso planeta, proporciona seus atributos de calor e vida. A luz do sol e o sol têm os mesmos atributos e propriedades, sendo ela seu aspecto dinâmico.  Em realidade, de fato quem proporciona vida aos planetas é a luz do sol e não o próprio. Grosseiramente, essa seria a similaridade entre Purusha e Shakti, Sol e Luz do Sol. Este exemplo seria ainda mais adequado se pudéssemos dizer que na própria formação da Terra a luz do sol se condensou originado-a! Prakritti, a matéria raiz de todo o universo, é a condensação da Shakti.

Como a Shakti, a Mãe Divina, se manifesta através dos diferentes seres e objetos do universo? No reino mineral se manifesta como a inteligência das partículas que formam os átomos e da organização desses átomos como moléculas. Ela, a Mãe Divina, se manifesta como calor, luz, som, magnetismo e eletricidade, por isso, chamada Bhuta Shakti ou a energia dos elementos.

No reino vegetal a Shakti se apresenta em grau superior, como Prana, a energia vital inteligente que promove a organização e o desenvolvimento das plantas e sua sensibilidade aos fatores externos. No reino animal, Ela se apresenta ainda em nível superior. A mente animal (kama) é capaz de aprendizado, instintos, percepção de certo grau de relações entre causa e efeito e maior percepção de prazer e dor. No homem, a Shakti desenvolve ainda o sentido estético e ético e o exercício dos poderes intelectuais, emocionais e volitivos, sendo chamada, então, Jiva Shakti. Mais elevado que Jiva Shakti é a manifestação da Mãe Divina na consciência dos Mestres, Devas, Seres de luz, com suas consciências límpidas, expandidas, com percepções da Unidade, da Plenitude e da Bem-aventurança. Então, Ela é chamada Atma Shakti, a mais elevada forma de Shakti a que pode aspirar o ser humano, levando-o a colaborar no plano divino como Hierarca.

Ela se apresenta em quatro grandes aspectos, quatro manifestações cósmicas que são os Poderes fundamentais: o poder do conhecimento, o poder da vontade, o poder da ação e o poder da síntese.

Personificando o Poder do Conhecimento (Gnana-Shakti) Ela é adorada como Saraswati, a  Deusa da Sabedoria, das Artes e das Ciências. O Poder da Vontade (Iccha-Shakti) é representado pela Divina Mãe na forma de Lakshmi, a benevolente Deusa da Prosperidade, da preservação do Dharma, da Beleza, da Bondade. Como Durga ou Kali, Ela personifica o Poder da Ação, a força avassaladora que “quando se manifesta no éter do coração reduz a cinzas os impedimentos provenientes da separatividade” e, “antigo Terror dos desígnios iníquos”, tal como Arjuna declarou no campo de batalha de Kurukshetra. Swami Vivekananda expressa de maneira extraordinária essa visão da Mãe Divina como um Poder destruidor da forma no sentido de produzir o movimento cósmico e a transformação evolutiva:

Vem, Mãe, Vem!

Pois Terror é Teu nome, a Morte está em Teu alento e cada passo que dás destróis um mundo eternamente. Tu, Tempo, a Onidestruidora.

Vem, Oh Mãe, vem!

E, finalmente, como Yoga Devi, Ela é  Maheswari, a Grande Energia Cósmica, o Sutratma ou Alma-Fio que une a todos os seres e a todos os mundos, como um cordão que une todas as pedras de um rosário. Neste aspecto, Ela é reverenciada como a Rainha da Hierarquia de Siddhas e Mahatmas que governam a evolução desse mundo, o néctar de onde flui a sabedoria e todos os poderes da Grande Fraternidade Branca.

Sua graça é ilimitada; Sua misericórdia é ilimitada; Seu conhecimento é infinito; Seu poder é incomensurável; Sua glória e inefável; Seu esplendor é indescritível. Ela lhe dá Bhukti (prosperidade material) e Mukti (liberação)”.

Este livro, trazido ao público de língua portuguesa, é único em vários aspectos. Yogini, revelando a Deusa Interior não traz a visão do erudito, do filósofo, nem mesmo do devoto. Traz a visão do Sadhaka, do discípulo em treinamento espiritual, e manifesta, numa linguagem muito peculiar, as experiências e o desenvolvimento da compreensão interior que a autora foi adquirindo ao longo de anos de práticas intensas tendo a Shakti como foco de seu Sadhana, a disciplina espiritual. Faz compreender que Veda e Tantra, ou seja, a contemplação do Ser, do Atma, do Imutável que transcende o Universo e não é afetado por ele, contido nos Upanishads e a contemplação da Shakti, ao mesmo tempo onipresente, envolvente e transcendente, contida nos textos tântricos e nos Agamas, são as duas tecnologias que mais rapidamente nos levam à Iluminação.

O valor especial deste livro é nos fazer compreender que a Matéria, oriunda da Shakti, é tão sagrada quanto o Atma, o Espírito e afasta de nossas mentes esta dicotomia que nos faz crer que o espiritual e o material são incompatíveis.

Conheci a autora Shambhavi Chopra, após estar em Varanasi, executando Yagyas, de acordo com antigos ritos védicos, conectados com o Jyotish, a astrologia. Chegando a Rishikesh, enquanto esperava para me encontrar com Swami Chidananda Muniji, presidente do Parmarth Niketan Ashram, eis que surgem, na sala onde eu estava, nosso querido David Frawley (Vamadeva Shastri) e aquela senhora que, confesso aos leitores, ao vê-la pela primeira vez, tive dúvidas se estava diante de um ser encarnado ou se se tratava de uma manifestação da Deusa Kali, em seu aspecto mais afável. Sua figura e, principalmente sua fala, mesclam uma grande amorosidade,  com uma autoridade incontestável. Minha mente médica ayurvedica logo deu o veredito de uma tipologia Pitta-Kapha, provida das qualidades espirituais de ambos. Nos dias seguintes estivemos juntos mais ao norte, no Himalaia, em um maravilhoso retiro, onde pude aprofundar ainda mais esta admiração e respeito por uma grande servidora da Devi, que nos faz sentir  presença divina nos menores detalhes da vida.

Este livro espelha sua presença. Por isso, louvei como extraordinária a iniciativa de nossa grande amiga Marcia De Lucca, que compartilhou conosco aquela experiência, nos seus esforços de publicar em português Yogini, revelando a Deusa Interior.

Narayanananda (Dr. Ruguê)

Você poderá adquirir este livro no site www.suddha.net.megaloja.com. Parte da renda adquirida da venda deste livro é empregada nos programas assistenciais da Fundação Sri Vájera

 

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Subhamastu sarva jagatam - que todos os seres sejam felizes! Seja bemvindo a este espaço de textos e comentários sobre a extraordinária Ciência Védica (Yoga Brahma Vidya), Ayurveda, Yoga, métodos naturais de cura, nossa experiência e o trabalho realizado pelos cientistas e professores aos quais estamos associados em vários países, nossas viagens de estudos e de trabalho e toda a beleza desse Caminho de Plenitude.

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